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“Estou procurando um unicórnio!” Bom, não é exatamente como se Nina Portolan, de 27 anos, estivesse literalmente à caça de um unicórnio, mas é assim que ela se sente vivendo com uma deficiência e enfrentando os desafios do sistema em seu país, a Sérvia, que, infelizmente, não é muito diferente do nosso.
Conheci a Nina enquanto conversávamos sobre uma série americana de TV. Seu posicionamento sempre me chamou atenção, e em conversas privadas, discutíamos sobre atitudes de alguns personagens do seriado e trocávamos nossas opiniões. Com o tempo, fomos nos conhecendo melhor, e compartilhávamos nosso dia a dia e experiências. Sua inteligência, determinação e força eram admiráveis, mas o que mais me tocava era sua bondade e doçura. Inspirada por essa amiga tão especial, perguntei se ela gostaria de dividir sua história por aqui.
Nina nasceu e vive na Sérvia, onde é extremamente complicado para pessoas com deficiência viverem com seus direitos respeitados. Infelizmente, isso é uma realidade que podemos observar em quase todo o mundo.
Coisas básicas, como muletas, são difíceis de encontrar no modelo certo. “Eu uso muletas de antebraço há mais de 15 anos. As primeiras eram simples, com uma braçadeira aberta e cabos de madeira. Elas me proporcionaram segurança para andar na escola e se tornaram a base do meu movimento independente. No entanto, não demorou muito e o seu cabo caiu… Logo depois, recebi muletas importadas do exterior com braçadeiras fechadas de plástico e uma junta móvel. Tudo o que posso fazer hoje sem ajuda, aprendi graças a elas. Tudo o que posso fazer, é com elas em minhas mãos. Como muitas pessoas com deficiência, vejo minha muleta como uma extensão do meu corpo”, diz Nina, explicando que existem diferentes modelos de muletas que impactam diretamente na segurança para se locomover.
Desde muito nova, Nina testemunhava a desigualdade no tratamento das pessoas com deficiência, o que aumentou ainda mais sua determinação em mudar essa percepção.
“‘E quando você vai se livrar dessas muletas?’ Essa é uma frase que sempre ouvi enquanto crescia. Toda vez, eu me sentia desconfortável ali na frente de um adulto e não fazia ideia do que responder. Havia aquela sensação de vazio no estômago.” Os adultos ao seu redor, como vizinhos, faziam comentários ignorantes, sugerindo que ela não andava por preguiça. Imagine uma criança ouvir isso? Mas, Nina transformou essa dor em motivação e, ao crescer, se tornou uma ativista dedicada.

Além de sua luta pela inclusão, Nina desenvolveu uma paixão pelo meio ambiente desde jovem, alertando sobre mudanças climáticas. Inspirada por sua mãe, que lhe ensinou a importância de cuidar dos outros, Nina refletiu sobre suas experiências e reconheceu que a falta de empatia e compreensão ao seu redor desempenhou um papel significativo em sua jornada.
Na adolescência, Nina começou a se interessar por direitos humanos e voluntariado. Contudo, enfrentou inúmeros desafios para encontrar informações e oportunidades. Muitas vezes, sentia-se isolada. Apesar de ter sido criada para acreditar na igualdade, a realidade da discriminação era difícil de ignorar. “Anos depois, ouvi meu colega e querido amigo dizer: ‘Não somos deficientes por nossos corpos, somos deficientes por um ambiente que nos exclui e nos discrimina.’ No início, não acreditei que isso fosse 100% verdade, mas rapidamente percebi o quão certo ele estava. Percebi que nunca me frustrei com minha deficiência, apenas com as barreiras que a sociedade coloca diante de mim.”
A história de Nina reflete uma transformação profunda, de enfrentar portas fechadas a se tornar um símbolo de resiliência e empoderamento. Aos 19 anos, ela descobriu o karatê e se juntou ao clube “Evropa”, onde conheceu o Sensei Livius Bunda, pioneiro do Parakarate. Em 2018, Nina entrou para a equipe nacional, conquistando mais de 10 medalhas de ouro e ganhando reconhecimento da mídia.


Sua jornada teve obstáculos emocionais. Em maio de 2018, ela competiu em uma cadeira de rodas no Campeonato Europeu Sênior de Caratê e Parakarate, o que inicialmente lhe pareceu um fracasso pessoal. Essa experiência desafiou suas crenças e impulsionou seu ativismo.
Em janeiro de 2019, Nina falou publicamente sobre a importância da acessibilidade aos esportes para pessoas com deficiência. Participar de uma sessão de estudos sobre vida independente e direitos das pessoas com deficiência, organizada pela ENIL e EYMH, marcou o início de seu trabalho como ativista.
Nina se envolveu em várias iniciativas, incluindo voluntariado na ENIL e participação em programas internacionais. Seu trabalho expandiu-se para cargos de diretoria e funções consultivas, defendendo os direitos das pessoas com deficiência em toda a Europa.
Embora tenha começado sua jornada de ativismo mais tarde, sua perspectiva única como atleta com deficiência alimentou sua defesa pela inclusão, igualdade e acesso. Nina enfatiza que a deficiência não é uma limitação, mas uma parte de sua identidade, instando a sociedade a reconhecer as pessoas além dos rótulos e estereótipos.

“A acessibilidade é para permitir que uma pessoa viva sua vida igual às outras. Para algumas pessoas, essa luta pode parecer que as pessoas com deficiência estão querendo receber um tratamento especial. Na realidade, estamos apenas tornando possível que todos tenham acesso, tornando as coisas acessíveis”. A inclusão não importa só para aqueles que dela necessitam, mas deveria ser uma preocupação de todos, já que beneficia a sociedade como um todo, promovendo diversidade, igualdade e inovação. Quando todos têm a oportunidade de participar plenamente, todos ganham.