Tarsila Schubert: A Arte Como Manifesto de Liberdade

Tarsila Schubert, cuja obra estampa uma das capas da nossa edição especial de Cultura & Arte, é mais do que uma artista. Ela é uma ponte entre culturas, uma contadora de histórias visuais e uma defensora incansável da liberdade em todas as suas formas. Brasileira de alma cosmopolita, Tarsila divide sua vida entre o Brasil, os Emirados Árabes e os Estados Unidos, explorando e celebrando a diversidade cultural que inspira suas criações.

Em um mundo cada vez mais interconectado, a arte de Tarsila Schubert surge como uma ponte entre culturas, histórias e realidades. Nascida no Brasil, mas com os pés plantados em múltiplos territórios, Tarsila vive e trabalha entre o Brasil, os Emirados Árabes e os Estados Unidos. Essa plularidade de experiências alimenta uma visão artística única, na qual a diversidade cultural não é apenas inspiração, mas uma essência que permeia cada traço, cor e forma de sua obra.

Eu comecei a desenhar e pintar na casa da minha avó, quando eu tinha entre 12 e 13 anos. Ela é pintora acadêmica, me deu a minha primeira tela e me ensinou algumas técnicas.

A jornada de Tarsila Schubert para o mundo da arte foi, como suas pinturas, um fluxo natural de intuição e descobertas. “Sempre gostei de pintar, desenhar e fazer trabalhos manuais, mas foi quando precisei deixar a faculdade de odontologia que decidi me dedicar integralmente à pintura”, compartilha a artista.

Tarsila desenvolveu seu estilo único quase que instintivamente. “Minha avó me ensinou algumas técnicas de pintura acadêmica e realismo, mas eu sempre pintei de forma mais abstrata e não sabia fazer de outro jeito. Aprendi praticamente sozinha, então nunca foi uma decisão consciente; deixei acontecer, segui minha intuição.”

Tarsila Schubert
Arte de Tarsila Schubert em Abu Dhabi
Rock the Mountain 2023
Arte de Tarsila Schubert no Rock the Mountain, 2023

Essa entrega ao acaso e à própria criatividade levou Tarsila a um caminho de coincidências e oportunidades. “Aos poucos, as coisas foram se encaixando, e cada vez mais eu era direcionada para esse universo. Nunca mais pensei na odontologia ou em qualquer outra profissão.”

Com uma trajetória que abrange murais, pinturas em tela, esculturas, cerâmicas, gravuras e design, Tarsila é uma artista que se recusa a ser limitada por estilos ou técnicas. Sua liberdade criativa é um reflexo direto de seus valores pessoais: a defesa da liberdade em todas as suas formas.

Radicada no Oriente Médio há 11 anos, Tarsila não apenas se estabeleceu em uma região culturalmente rica, mas também desafiou paradigmas em um espaço historicamente complexo para mulheres artistas.

o fato de eu pintar na rua e depois começar a pintar murais me levou para um caminho que eu jamais poderia imaginar.

Em 2016, ela foi a primeira mulher a pintar um mural público em Amã, na Jordânia, durante a Copa do Mundo Feminina da FIFA. Nos Emirados Árabes Unidos, tornou-se pioneira ao abrir caminho para outras mulheres artistas no campo da arte urbana.

“Eu pinto já faz 20 anos. Claro que cada fase foi diferente e as inspirações também. A partir de 2014, mais ou menos, comecei a pintar cada vez mais abstrato. Mas, minhas inspirações começaram a vir cada vez mais de dentro”, conta Tarsila, cuja arte atravessa fronteiras culturais para desconstruir estereótipos e inspirar novas narrativas. Cada mural, cada instalação, é uma afirmação de que o espaço público também pertence às mulheres.

“Quando eu estou pintando penso em muitas coisas, escuto muitas aulas sobre alguns assuntos que são inspiradores para mim. Eu gosto de observar meus pensamentos e não gosto de ter uma ideia fixa sobre algo. Eu, primeiro, fecho os olhos e, de repente, vem uma imagem! Aí, eu começo a trabalhar nessa imagem com esboços e depois no processo de pintura sempre acabo mudando uma coisa ou outra. Tenho algumas referências em botânica, biologia e microscopia em termos de formas. Em termos de mensagem e assunto escuto muito sobre o universo, filosofia, psicologia, psiquiatria e história”, conta.

Foto por Lua de Andrade (@luadeandrade)
Foto por Lua de Andrade (@luadeandrade)
Tarsila Schubert
Foto por Lua de Andrade (@luadeandrade)

Não é surpresa que o trabalho de Tarsila tenha conquistado uma audiência internacional. Suas obras já foram exibidas em galerias e exposições em países como Estados Unidos, Brasil, Itália, França, Japão, Reino Unido, Coreia do Sul e muitos outros. Ela também colaborou com marcas renomadas como Hermès, Levi’s, Adidas, Red Bull, Samsung e Microsoft, levando sua arte para plataformas globais.

Sua assinatura artística já foi destaque em publicações de prestígio como CNN, The Guardian, Vogue, The National e Vice Magazine, consolidando seu nome no cenário das artes visuais contemporâneas.

O trabalho de Tarsila é, acima de tudo, profundamente pessoal. Ela o descreve como um reflexo de seus processos internos, traduzindo suas emoções e visões em uma paleta vibrante e texturas impactantes. Essa honestidade criativa é o que torna suas peças tão poderosas, comunicando mensagens universais de pertencimento, transformação e resiliência.

Ela acredita que a consistência é a chave para a criatividade. “Sigo religiosamente uma rotina criativa, nem que seja por uma hora ou por 12 horas, dependendo do processo em que estou”, revela. Para ela, manter-se conectada à arte é essencial: “Vejo algo relacionado ao assunto todos os dias e trabalho com arte quase diariamente há 12 anos.”

Tarsila Schubert
Arte para o Ultra Music Festival, Coreia do Sul

Embora sua dedicação seja inabalável, a artista reconhece os altos e baixos do processo criativo. “Existem muitos dias bons, mas também dias ruins. Porém, como em qualquer coisa à qual nos dedicamos, é importante continuar, mesmo durante os momentos ou fases difíceis.”

Esse comprometimento diário com a arte não é apenas um hábito, mas uma filosofia que impulsiona seu trabalho a novos horizontes. É essa consistência que permite a Tarsila transformar desafios em inspiração e seguir criando obras que emocionam e conectam públicos ao redor do mundo. Ao observar suas pinturas e instalações, o espectador é convidado a mergulhar em um diálogo entre cores, formas e significados. Cada obra é uma história—às vezes um manifesto, outras vezes um sussurro—mas sempre um convite à introspecção e à conexão.

O Papel da Cultura Brasileira na Arte de Tarsila Schubert

Desde o nascimento, Tarsila Schubert carrega a arte brasileira em sua essência, algo que ela acredita ser inevitável. “Meu nome é Tarsila, né? Mesmo que eu não quisesse, já nasci conectada com a arte brasileira”, brinca. Seu pai, um apreciador da arte moderna brasileira, desempenhou um papel importante em sua formação artística. “Ele me contava sobre o que gostava, me mostrava obras e compartilhava ideias. Foi por isso que escolheu esse nome para mim, em homenagem à Tarsila do Amaral.”

Hoje, vivendo e trabalhando entre diferentes continentes, Tarsila incorpora elementos da cultura brasileira em sua arte de maneira orgânica. “Gosto muito de estudar a flora do Brasil, que me inspira bastante. Como saí do Brasil há muitos anos e consolidei minha carreira no exterior, acho que minha arte, sendo feita por uma brasileira, conectou naturalmente com as pessoas por suas cores fortes e vibrantes”, reflete. Para Tarsila, o impacto de sua arte sobre o público é algo que ela observa com curiosidade, mas sem expectativas específicas.

Não espero que as pessoas sintam algo determinado. Acho que cada pessoa vê e sente o mundo de uma forma muito íntima e única.

Esse desprendimento permite que suas obras sejam interpretadas de formas diversas, frequentemente diferentes das emoções que ela sentiu ao criá-las. “A beleza está nisso, na diversidade de ideias e sentimentos sobre uma mesma coisa”, destaca. Essa abertura ao diálogo com o público torna sua arte não apenas uma expressão pessoal, mas também uma experiência compartilhada, capaz de ressoar de maneiras inesperadas com quem a observa.

 

No dinâmico e competitivo mercado de arte, Tarsila Schubert reflete sobre os desafios que enfrenta, tanto internos quanto externos. “Acho que os desafios não vão parar nunca; temos que estar sempre enfrentando os nossos próprios limites”, afirma. Para ela, o maior obstáculo é manter a autenticidade em meio à pressão de se adaptar às estratégias de mercado e ao ritmo frenético do mundo contemporâneo.

“Temos que acompanhar o mercado, mas sem nos desesperarmos. Isso pode minar nossa confiança e nos afastar de quem realmente somos”, alerta. Tarsila acredita que o equilíbrio é fundamental. “Acompanhar as tendências é importante, mas o essencial é dar prioridade ao nosso próprio processo criativo. Quando focamos em nós mesmos e acreditamos no que estamos fazendo, as coisas acontecem naturalmente.”

Entre as muitas obras desafiadoras que já criou, Tarsila destaca uma experiência marcante em Beirute, no Líbano, em 2015. Ela pintava um mural em um prédio de sete andares, sozinha, em um cenário de tensão e violência. “Na semana em que estava pintando, houve um atentado com dois homens-bomba e começaram protestos intensos nas ruas. O prédio tinha marcas de tiros e explosões de ataques anteriores”, relembra.

Apesar do medo constante, Tarsila enfrentou os cinco dias de trabalho intenso, dedicando mais de dez horas diárias para concluir o mural. “Foi desafiador, mas no final deu tudo certo. Essa obra acabou me abrindo muitas portas no Oriente Médio, mesmo sem que fosse minha intenção inicial.”

Quando questionada sobre influências, Tarsila responde de maneira direta: “Sim, e são várias.” Sua trajetória reflete uma absorção constante de referências, que vão desde a cultura brasileira até movimentos e artistas internacionais. Essa pluralidade de inspirações é parte da essência de seu trabalho, que transita livremente entre técnicas, estilos e geografias, mantendo-se sempre autêntico e profundamente pessoal.

Tarsila Schubert

Para Tarsila Schubert, ser artista nos dias de hoje é tanto um privilégio quanto uma responsabilidade. “Agradeço todos os dias por poder me dedicar 100% à arte, apesar dos muitos desafios que enfrento,” revela. Sua trajetória reflete um compromisso constante com seu propósito criativo, reforçado por uma clareza inabalável sobre seus valores pessoais e o que realmente importa em sua jornada.

“Vivemos em um mundo tão complexo e diverso que é muito fácil se sentir perdido e sem sentido,” pondera. Para ela, o segredo está em ser fiel a si mesma e aos seus valores. “Manter essa conexão com o que acreditamos e defender nossas ideias é essencial para navegar em tempos como os de hoje.”

Com um olhar sensível e uma determinação firme, Tarsila segue usando sua arte como ferramenta para conectar culturas, explorar emoções e inspirar autenticidade em meio à diversidade do mundo contemporâneo.

A arte de Tarsila Schubert é um lembrete de que a liberdade criativa pode transcender barreiras e desafiar preconceitos. Seja em um mural em Dubai, uma escultura em São Paulo ou uma exposição em Nova York, sua mensagem permanece clara: a arte é um espaço de liberdade, expressão e transformação.

Nesta edição especial da D’Idées Cultura&Arte, Tarsila estampa uma de nossas capas, representando não apenas sua jornada como artista, mas também o poder das mulheres que moldam o mundo através da arte. Ao admirar seu trabalho, somos convidados a refletir sobre o que significa realmente ser livre—e como a arte pode nos conduzir a essa resposta.

A edição especial “La Art et la Culture” encerra o ano de 2024 com uma celebração vibrante à arte em todas as suas formas. Inspirada pela rica interação entre moda, beleza, cultura e estilo de vida, esta edição destaca como a criatividade permeia e transforma o cotidiano humano.

Explorando diferentes segmentos artísticos, reunimos nomes brilhantes que representam a pluralidade e a força da arte.

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