Por Sheila Carozzi
Uma linda e emocionante homenagem ao gatinho Frajola, que viveu cercado de amor
No Jardim Encantado de Lolla, uma linda gata escaminha de olhos âmbar e miado sedutor, vivem diversas criaturas, todas em harmonia e com cuidados individuais para não serem absorvidos pela força da cadeia alimentar. Cada um sabe o seu lugar e se cuida em relação ao outro, convivendo e coexistindo. Meu nome é Benjamim, eu sou um Sabiá Laranjeira, se não me conhece de bate-pronto, vou te ajudar a lembrar de mim. Eu sou cinza, esguio e tenho uma bela barriga degradê salmão até se alaranjar mais ao se aproximar das minhas pernas, gosto de cantar a partir das 3 da manhã para saudar o alvorecer, sou considerado o pássaro símbolo do Brasil, sou amigável e acreditam que eu trago boas energias e bom agouro, e eu trago mesmo. Eu moro no Jardim com minha esposa, Mercedes, e meus filhotes, até eles alçarem seus voos. Aqui também vive um casal de Bem-te-vis, o Demósthenes e a Alzira, com seus filhotes até eles alçarem seus voos, assim como os nossos filhotes. Mas dia 19 de abril de 2024, às 18 horas, vimos algo muito diferente sobrevoando nosso paraíso particular…
“Demósthenes, Demósthenes, olha isso! Você está vendo?”, disse o Sabiá Benjamim, embasbacado, tentando conferir se realmente estava vendo o que estava vendo. “Será isso mesmo?”
“Benjamim, o que foi?”, pergunta o Bem-te-vi Demósthenes colocando sua cabecinha linda, preta e branca que disfarça o que vem em seguida, um belo pescoço branco e um forte corpo amarelo se destacando com asas pretas, brancas e cinza, mesclados delicadamente.
“Eu acho que eu vi um gatinho!?”, Benjamim responde com os olhos muito arregalados, quase que pedindo uma segunda face para caberem de tanto espanto e inconformismo.
Nesse momento, as respectivas esposas e os filhotes despertam e pulam para ver o que está acontecendo lá fora. Afinal, o Jardim é da Lolla, uma gata, e há muitos gatos que visitam esse jardim para comer a ração e água fresca que a Dona Gateira deixa ali para eles, e vamos concordar que a expressão “Eu acho que eu vi um gatinho” é bem conhecida de todo passarinho que já parou numa janela pela manhã e viu, na TV de uma casa, um canarinho cabeçudinho amarelo se esquivando de um gato preto e branco, ou até de um pássaro que conheceu pessoalmente um canário amarelo, que todo exibido contou que sua espécie é estrela de uma renomada série de TV dos Estados Unidos.
“Eu sei que parece estranho o que vou dizer, mas eu vi um gatinho! Um gato da raça American Shorthair, conhecido como Frajola, mas com asas translúcidas, como um anjo. Olha, olha!”, diz Benjamim, apontando com o bico e com os olhos agora maravilhados.
Simultaneamente todos olham e todos enxergam a mesma coisa, um gato lindo, branco e preto, com a barriga toda branca e as costas pretas até o rabo, menos a ponta do rabo, que é branca. Nas costas com alguns poucos pelos brancos nas laterais que dão a impressão de que ali já estava preparado para receber suas lindas asas de anjo, uma divisão entre as costas e o pescoço, toda branca, que contorna o rosto, como se fosse uma máscara que cobre os olhos, mas deixa o focinho, a boca e parte das bochechas descobertas. Tudo branco, lindos bigodes e sobrancelhas brancas e o nariz e contorno da boca rosa, como um doce suspiro. A pele embaixo do pelo também é rosa, assim como as almofadinhas de suas patas. Ele é a visão do paraíso de tanta beleza, olhar doce e curioso e muita delicadeza nesse desenho com contornos que remetem a um gato branco com uma capa e máscara preta. Mas ele parecia meio perdido, meio lá e meio cá, sem saber bem o que estava acontecendo, seus olhos, que eram uma mistura de âmbar e verde, estavam com as pupilas dilatadas, parecia tão surpreso quanto os pássaros do Jardim, afinal não é característico de um gato…voar.
O silêncio toma conta e os olhos de todos se cruzam enquanto contemplam aquela imagem inacreditável. Aos poucos a imagem vai ficando mais nítida e sim, era um lindo gato Frajola, não havia nenhuma dúvida. Ele sobrevoava o Jardim, se dirigia a algumas janelas próximas dali e depois subia num voo lindo na mesma direção e parava em uma ou duas janelas de um mesmo andar. Os pássaros só observavam, estarrecidos com o que estavam vendo. Nessas janelas alguns gatos apareciam e parecia que choravam, e o chamavam pedindo para ele entrar e ficar. Uma cena surreal, nenhum pássaro piava, o Jardim todo em absoluto silêncio quando de repente aparece um outro gato Frajola, esse com um coração preto no nariz e junto dele mais um, só que esse muito parecido com o Frajola Anjo, só faltava a ponta branca no rabo, basicamente.
O silêncio foi quebrado quando Benjamim, sábio como ele só, cochichou com Demósthenes:
“Isso está acontecendo, não tenho dúvida, mas uma coisa me passou pela cabeça, será que Frajola Anjo também persegue passarinho? Será que é exclusividade de canários ou Sabiás e Bem-te-vis fazem parte desse roteiro? Pois isso está parecendo mais um filme.”
E antes que Demósthenes tentasse responder, o Frajola Anjo voou e se posicionou de forma que todas as criaturas encantadas do Jardim, os convidados frajolas e as janelas pudessem escutá-lo. Nesse momento os 7 gatos da janela mais próxima do Jardim se aproximaram com a mãe gata Benedetta na frente, sendo consolada pelos 6 atrás, e os 3 gatos da janela acima ficaram lado a lado abraçados prestando atenção.
“Boa noite, meus amigos, mãe e irmãos. Eu sou o Frajola, mas também o Franjs, Frajolinha, Naso di fragola, Cor de Rosa, Sunshine, e todos os nomes lindos que minha família me chamava. Não se assustem, eu não vou comer vocês, passarinhos. Está tudo meio estranho, mas confesso que voar é uma sensação incrível, bem que a mamãe humana falava que os pássaros pareciam sempre bem felizes. Eu ganhei essas asas agorinha, eu tentei me livrar delas e ficar no colo da mamãe humana, mas eu estava muito fraco. Eu sei que ela fez tudo que conseguia, e eu confesso que eu também, pois estava bem difícil continuar. Ela me contava que tinha um céu dos gatinhos e acho que é para lá que estou indo, talvez eu encontre meu pai Frajolão e as gatinhas, os gatinhos e cachorrinhos que a mamãe humana contava histórias. Mas antes eu vim me despedir de vocês todos.”
Agora todas as criaturas estavam vidradas e emocionadas, havia ali naquele jardim, tão próximo das folhas verdes das árvores cheias de vida, que se alimentavam do solo e supriam através de seus troncos as orquídeas fixadas neles, de tantas espécies e cores, branca, rosa, salmão, amarela, violeta, laranja, todas floridas, como as flores que a mamãe humana costumava mostrar a ele nos nossos passeios que faziam, um gato frajola anjo voando, falando e se despedindo. Atrás dele um pôr do sol lindo, e isso fez Demósthenes e Benjamim lembrarem de já tê-lo visto na janela no colo da mãe humana dele, assistindo esse espetáculo como numa oração e logo depois saírem dançando uma valsa juntos, ele com aquele sorriso de gato feliz, e ela cantando e dançando olhando para eles e chamando os irmãozinhos dele para se aproximarem e logo os pegar no colo para dançar também enquanto ele olhava cheio de amor para aquela cena, que sempre se repetia, mas nunca perdia a graça e o encanto. E ele continuou a falar.
“Eu fui o gato mais feliz e amado do universo. A minha mãe humana me perseguia desde que eu era pequeno, eu era amigo dos porteiros e curtia a vida livre antes de me entregar para ela. Na noite que ela ia levar eu e meus irmãos pretinhos para o apartamento dela para morar com o Nero e o papai também, eu fugi e encontrei a mamãe gata Benedetta e ela me aconselhou a voltar para a mamãe humana, pois eu tinha um dodói sério que precisaria de cuidados e ela tinha certeza que a mamãe e o papai humano fariam de tudo por mim. E eles fizeram mesmo. Eu acabei de morrer, nos braços dela. Eu não queria fazê-la chorar, mas não teve jeito, a gente se ama demais e dói quando isso acontece. Eu também estou triste, mas melhor assim do que ela ter que escolher isso por me ver sofrendo.”
E passando as patinhas brancas nos olhinhos, ele enxugou as lágrimas e continuou.
“Eu quero dizer para vocês que estou indo embora daqui, mas viverei eternamente no coração de todos que conheci e todos viverão no meu coração. Quando eu estiver triste me lembrarei das brincadeiras com a mamãe humana e nossa família, de eu a acordando falando no ouvido dela, de eu ficando com a barriga para cima para ela beijar, de eu contando histórias para ela e fazendo companhia enquanto ela trabalhava e cuidava de nós e da casa. Das noites em claro ao lado dela e a seguindo quando ela não estava bem, ou só assistindo uma série. Nos últimos tempos ela teve que fazer coisas que nunca imaginou, como aplicar soro em mim, remédios em mim e no irmãozinho todo dia, mas ela cantava pra mim e tudo parecia menos dolorido. O último soro em casa foi no colo dela, esses últimos dias fiz coisas que ela amava, mesmo com dificuldade, só para ela entender que eu a amo e estarei com ela para sempre. Nos vídeos que ela fazia de mim, eu sempre olhava bem para ela poder assistir e lembrar de como eu a olhava e o tanto que a amo. Já instruí meus irmãos sobre como devem ser com ela e com o papai. E vocês, os 2 Frajolas, o Black Heart e o Frajolinha que parece comigo, fiquem por perto, isso vai ajudá-la a lembrar de mim vivo. Sejam felizes e aproveitem o amor que recebem, dando todo esse amor de volta. Esse é o sentido da vida. A mamãe já sabia. Mas juntos revisamos essa matéria sem cessar.” E ele levantou voo e se foi.
Benjamim e Demósthenes se olharam, suas esposas e filhos também, todas as criaturas do Jardim Encantado de Lolla, a própria Lolla, os Frajolas também, antes dela os colocar para correr. Assim como as flores, as plantas, as árvores, todos. O Sol se despediu e a noite chegou, a Lua e as estrelas apareceram e tudo continuou como deve ser, e eles vêm e vão sincronizadamente, todos os dias e em todos são espetaculares. Em todos faltará a presença física ilustre do Frajola, mas em todos ele está presente, seja nas lágrimas, nos risos, nas lembranças, mas principalmente nos ensinamentos de amor, cuidado e perdão que ele ensinou. Dizem que nada é eterno, mas será eterno tudo que estiver comprometido com o amor.