Saúde Mental Virou Moda? (Ou Apenas Mais Um Produto?)

 Nos últimos anos, a saúde mental passou de tabu a tendência. Nunca se falou tanto sobre ansiedade, depressão, burnout e autocuidado. A princípio, isso é positivo. Afinal, durante décadas, fomos ensinados a engolir o choro, a “ser fortes”, a tratar transtornos mentais como fraqueza ou frescura. Agora, finalmente, temos mais espaço para conversar sobre isso. Mas até que ponto essa discussão é autêntica? Até que ponto se tornou apenas mais um mercado, onde a dor alheia é explorada para vender cursos, livros, mentorias e uma ilusão de bem-estar?

 O problema não está em falar sobre saúde mental, mas na forma como isso vem sendo feito. De um lado, temos quem realmente busca apoio, quem reconhece que cuidar da mente é um processo complexo e, muitas vezes, doloroso. De outro, temos os oportunistas: influenciadores que misturam autoajuda barata com estratégias de marketing para vender a fórmula da felicidade instantânea. Pessoas que transformam questões sérias em slogans, que incentivam uma positividade tóxica onde não se pode sentir nada negativo, onde qualquer tristeza passageira já é um sinal de que você precisa do “método exclusivo” que eles estão vendendo.

A realidade é que saúde mental não se resolve com frases motivacionais, muito menos com um e-book de R$ 49,90 ou um curso de “desbloqueio emocional”. Transtornos mentais exigem suporte profissional, terapia, acesso a informação de qualidade, mudanças estruturais na vida da pessoa. Mas isso dá trabalho, e trabalho não vende tão bem quanto promessas milagrosas. E é exatamente aí que mora o perigo. O que era para ser uma discussão séria virou um mercado onde todos querem surfar na onda. Hoje, qualquer um se autointitula especialista em saúde mental sem qualquer preparo acadêmico ou experiência real, sem responsabilidade com o impacto do que está dizendo. E as pessoas, sedentas por uma solução rápida para seus problemas, compram. Compartilham. Viram seguidoras fiéis de um discurso que, no fundo, não se sustenta.

Para piorar, a banalização de termos psicológicos também se tornou um problema. Hoje, qualquer dificuldade de foco é tratada como TDAH, qualquer desânimo é rotulado como depressão. O autodiagnóstico baseado em três postagens do Instagram faz parecer que todo mundo tem um transtorno, mas sem qualquer aprofundamento sobre o que isso realmente significa. Isso não é conscientização, é reducionismo.

E não podemos esquecer das empresas, que descobriram que usar saúde mental como estratégia de marketing é excelente para a imagem. São corporações que exploram seus funcionários até a exaustão, mas promovem “dias de bem-estar” com palestras motivacionais que só servem para mascarar a realidade. Não há políticas reais de suporte, não há espaço para falar sobre burnout, apenas discursos bonitos e campanhas publicitárias que rendem engajamento.

Saúde mental não pode ser moda. Não pode ser um nicho lucrativo para quem quer vender um estilo de vida “mais leve” sem o menor compromisso com a verdade. Se realmente queremos avançar nesse debate, precisamos parar de cair na armadilha dos gurus do bem-estar, dos influenciadores do “good vibes only” que se preocupam mais em te vender um curso do que em te ajudar de verdade. Precisamos lembrar que cuidar da mente é um processo real, e não um produto para consumo rápido. O que está em jogo não é uma tendência passageira, mas a qualidade de vida de milhões de pessoas que precisam de suporte genuíno, e não de mais uma promessa vazia.

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