Ganhando força em meio à ausência de nomes icônicos como Dior e Valentino, a recente Paris Couture Week destacou uma nova geração de criadores que transformam elegância em consciência. Designers como Glenn Martens na Maison Margiela e Michael Rider na Celine trouxeram narrativas tecidas com crítica social, experimentação ecológica e inovação técnica.
Glenn Martens na Maison Margiela
O designer belga fez sua estreia arrebatadora com a linha Artisanal da Margiela. Sua coleção misturou inspiração na arquitetura medieval, punk gótico e materiais reaproveitados como roupas vintage e joias garimpadas — numa homenagem ao legado do anonimato e experimentalismo da casa.
Martens transformou máscaras e objetos descartados em arte vestível, carregada de tensão e significado.
Glenn Martens ressignifica a tradição da Margiela
O debut de Martens na linha Artisanal da Margiela, celebrado em 9 de julho no Le Centquatre, marcou uma costura ousada entre o passado e o futuro. Inspirado nos interiores flamengos do século XVII e na filosofia de anonimato da maison, ele criou looks que mesclam upcycling, máscaras metálicas e tecido plastificado — uma releitura visceral do DNA criativo da marca. A alquimia teatral incluiu vestidos em plásticos amassados, couros reaproveitados, cristais mortos e corsets dourados com acabamentos de folha metálica.
Michael Rider na Celine

Destaques da coleção SS26 — um grande retorno e homenagem aos códigos da maison por um designer que une herança e atitude no vestuário contemporâneo. Silhuetas refinadas, cores vibrantes e acessórios poderosos marcam o início de uma nova era.
Em seu retorno à Celine, Rider equilibrou continuidade e irreverência. Sua proposta uniu silhuetas parisianas clássicas com acessórios expressivos e volumes cuidadosamente tensionados — uma releitura moderna e apropriada da estética de Philo e Slimane para o novo panorama fashion.
Inovação ecológica e biotecnologia
A alta-costura de 2025 tem espaço até para vestidos vivos. A designer Iris van Herpen, com sua coleção Sympoiesis, apresentou um vestido que brilha com 125 milhões de microalgas bioluminescentes, reagindo ao movimento da modelo e convidando à reflexão sobre o diálogo entre arte e ciência.
Visões da coleção “Sympoiesis” da Iris van Herpen
- Vestido vivo com bioluminescência: criado com cerca de 125 milhões de microalgas Pyrocystis lunula, encapsuladas em uma matriz nutritiva que brilha quando a modelo se move — uma coreografia luminosa entre organismo e alta-costura.
- Transporte e manutenção da vida: a peça exigiu um processo de 35 etapas, uso de caminhões refrigerados e sensores de umidade para manter as algas vivas até o momento do desfile. O resultado é uma obra orgânica pulsante sobre o corpo.
- Colaboração com Chris Bellamy (Bio Crafted): com apoio do University of Amsterdam e do Francis Crick Institute, a parceria tornou possível uma moda realmente viva, unindo ciência, arte e sustentabilidade.
Separando moda de ficção, Iris van Herpen apresentou um vestido que literalmente brilha: feito com 125 milhões de microalgas bioluminescentes, a peça reage ao movimento e emana um brilho azul elétrico em ambiente escurecido. Consolida sua visão de moda como arte-científica — uma aliança entre estética, sustentabilidade e tecnologia. O processo contou com estrutura de suporte que mantém as algas vivas dentro de um gel nutritivo e uso de caminhões refrigerados para transporte entre países. Há também tecidos de bio-proteína cultivados em laboratório, biodegradáveis e recicláveis.
Reflexões emergentes
A ausência de nomes tradicionais abriu caminho para discussões sobre propósito e herança. Designers como Marine Serre e Germanier somaram seus discursos ao evento, usando materiais reciclados, upcycling e narrativas eco-futuristas que desafiam a lógica do descarte e reabilitam o valor do artesanal como resistência identitária.
Por que essa edição merece atenção?
Emergência sobre tradição: com a ausência das grandes maisons, novos criadores como Michael Rider na Celine apresentaram propostas frescas e igualmente impactantes. Rider entregou silhuetas versáteis, cortes contemporâneos e acessórios expressivos, renovando a elegância parisiense.
Sustentabilidade como discurso emocional: ao combinar couture com upcycling, biotecnologia e estética narrativa, a alta-costura transita da frivolidade para o estímulo crítico. É couture como provocação.
Estética como mensagem: Margiela e van Herpen mostram que drapeados, brilho, plásticos e organismos vivos nas passarelas não só traduzem imagens do mundo real, como formas de protesto poético.
