Paris Couture Week desvela alta-costura consciente e visceral

Com as grandes maisons ausentes nesta edição, a Paris Couture Week Fall/Winter 2025 se transformou em um palco de renovação estética e ética — onde o luxo foi repensado em diálogo com o meio ambiente e a memória histórica.

Ganhando força em meio à ausência de nomes icônicos como Dior e Valentino, a recente Paris Couture Week destacou uma nova geração de criadores que transformam elegância em consciência. Designers como Glenn Martens na Maison Margiela e Michael Rider na Celine trouxeram narrativas tecidas com crítica social, experimentação ecológica e inovação técnica.

 

Glenn Martens na Maison Margiela

O designer belga fez sua estreia arrebatadora com a linha Artisanal da Margiela. Sua coleção misturou inspiração na arquitetura medieval, punk gótico e materiais reaproveitados como roupas vintage e joias garimpadas — numa homenagem ao legado do anonimato e experimentalismo da casa.

Martens transformou máscaras e objetos descartados em arte vestível, carregada de tensão e significado.

Glenn Martens ressignifica a tradição da Margiela

O debut de Martens na linha Artisanal da Margiela, celebrado em 9 de julho no Le Centquatre, marcou uma costura ousada entre o passado e o futuro. Inspirado nos interiores flamengos do século XVII e na filosofia de anonimato da maison, ele criou looks que mesclam upcycling, máscaras metálicas e tecido plastificado — uma releitura visceral do DNA criativo da marca. A alquimia teatral incluiu vestidos em plásticos amassados, couros reaproveitados, cristais mortos e corsets dourados com acabamentos de folha metálica.

Michael Rider na Celine

Celine by Michael Rider: elegância reinventada na Paris Couture Week 2025
Destaques da coleção SS26 — um grande retorno e homenagem aos códigos da maison por um designer que une herança e atitude no vestuário contemporâneo. Silhuetas refinadas, cores vibrantes e acessórios poderosos marcam o início de uma nova era.


Em seu retorno à Celine, Rider equilibrou continuidade e irreverência. Sua proposta uniu silhuetas parisianas clássicas com acessórios expressivos e volumes cuidadosamente tensionados — uma releitura moderna e apropriada da estética de Philo e Slimane para o novo panorama fashion.

 

Inovação ecológica e biotecnologia

A alta-costura de 2025 tem espaço até para vestidos vivos. A designer Iris van Herpen, com sua coleção Sympoiesis, apresentou um vestido que brilha com 125 milhões de microalgas bioluminescentes, reagindo ao movimento da modelo e convidando à reflexão sobre o diálogo entre arte e ciência.

Visões da coleção “Sympoiesis” da Iris van Herpen

  • Vestido vivo com bioluminescência: criado com cerca de 125 milhões de microalgas Pyrocystis lunula, encapsuladas em uma matriz nutritiva que brilha quando a modelo se move — uma coreografia luminosa entre organismo e alta-costura.

  • Transporte e manutenção da vida: a peça exigiu um processo de 35 etapas, uso de caminhões refrigerados e sensores de umidade para manter as algas vivas até o momento do desfile. O resultado é uma obra orgânica pulsante sobre o corpo.
  • Colaboração com Chris Bellamy (Bio Crafted): com apoio do University of Amsterdam e do Francis Crick Institute, a parceria tornou possível uma moda realmente viva, unindo ciência, arte e sustentabilidade.

Separando moda de ficção, Iris van Herpen apresentou um vestido que literalmente brilha: feito com 125 milhões de microalgas bioluminescentes, a peça reage ao movimento e emana um brilho azul elétrico em ambiente escurecido. Consolida sua visão de moda como arte-científica — uma aliança entre estética, sustentabilidade e tecnologia. O processo contou com estrutura de suporte que mantém as algas vivas dentro de um gel nutritivo e uso de caminhões refrigerados para transporte entre países. Há também tecidos de bio-proteína cultivados em laboratório, biodegradáveis e recicláveis.

 

Reflexões emergentes

A ausência de nomes tradicionais abriu caminho para discussões sobre propósito e herança. Designers como Marine Serre e Germanier somaram seus discursos ao evento, usando materiais reciclados, upcycling e narrativas eco-futuristas que desafiam a lógica do descarte e reabilitam o valor do artesanal como resistência identitária.

Por que essa edição merece atenção?

Emergência sobre tradição: com a ausência das grandes maisons, novos criadores como Michael Rider na Celine apresentaram propostas frescas e igualmente impactantes. Rider entregou silhuetas versáteis, cortes contemporâneos e acessórios expressivos, renovando a elegância parisiense.  

Sustentabilidade como discurso emocional: ao combinar couture com upcycling, biotecnologia e estética narrativa, a alta-costura transita da frivolidade para o estímulo crítico. É couture como provocação.

Estética como mensagem: Margiela e van Herpen mostram que drapeados, brilho, plásticos e organismos vivos nas passarelas não só traduzem imagens do mundo real, como formas de protesto poético.

 

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