Por uma editora de beauty cansada (mas ainda inteira)
Acordar bonita. Treinar bonita. Trabalhar com a luz perfeita no rosto. Registrar a beleza do jantar, da máscara facial, do nascer do sol — bonita. Ser bonita nas férias, no caos, na TPM, nas reuniões por vídeo, no café com as amigas. Ser bonita até quando não há ninguém olhando. Ou pior: quando há todo mundo olhando.
Cansou?
A mim, sim.
Tenho escrito sobre beleza há mais de dez anos. Já testei cosméticos incríveis, me emocionei em entrevistas com mulheres que transformaram cicatrizes em bandeiras, aplaudi tendências e celebrei a evolução do mercado. Acredito sinceramente que cuidar de si pode ser um ato de autoconsciência. Mas nos últimos tempos, percebo que a beleza deixou de ser um espaço de expressão para virar mais um território de cobrança.
Não é mais só sobre ser bonita — é sobre parecer natural do jeito certo, performar o glow saudável com tempo cronometrado, manter a pele “clean” e as emoções em ordem. “Você parece cansada” virou sinônimo de não ter dado conta de fazer a máscara noturna, o colágeno, o gua sha e o sono de oito horas.
E quem disse que não estar tudo bem não é normal?
Estamos exaustas. E sim, também por causa da beleza.
Porque a beleza virou uma performance 24 horas por dia. Porque a imagem que mostramos virou produto. Porque o espelho agora tem curtidas. Porque a estética nas redes é uma exigência emocional, uma maratona invisível de autoestima que nem sempre dá conta de ser sustentada.
Tem dias em que simplesmente não quero ser bonita — quero ser eficiente, quero ser invisível, quero estar presente sem que isso precise ser instagramável. E tudo bem.
A “clean beauty” — que começou como movimento de transparência nos ingredientes — virou um novo uniforme visual. Pele translúcida, zero textura, cílios penteados, contorno suave. Tudo supostamente espontâneo. Mas ninguém fala do tempo (e do dinheiro) investido para parecer “sem nada”. A naturalidade virou outra estética a ser perseguida.
Fico pensando: quando foi que beleza virou sinônimo de autocontrole? Quando até a vulnerabilidade precisa ser fotogênica, estamos todos — inclusive o mercado — perdendo o ponto.
Não estou dizendo para abandonarmos a maquiagem, o skincare ou o prazer estético. Longe disso. Eu amo meus rituais, o cheiro do sabonete certo, a sensação de uma pele bem tratada. Mas é preciso fazer as pazes com o não performar. Com o acordar esquisita, com o dia em que não deu tempo, com a olheira de quem chorou ou de quem simplesmente viveu.
Talvez o futuro da beleza não seja sobre se mostrar perfeita, mas sobre se permitir aparecer — inclusive nos momentos em que isso não se encaixa no feed.
É libertador se lembrar disso.
Se quisermos um futuro onde beleza seja realmente liberdade, precisamos parar de acreditar que estar bonita é uma obrigação constante.
Seja bonita quando quiser.
Mas seja real, sobretudo, quando precisar.
