Vivemos tempos em que parece não bastar apenas se importar. É preciso mostrar. Registrar. Reagir. Em meio a timelines recheadas de posicionamentos, lutos públicos e solidariedades digitais, é difícil saber onde termina o afeto verdadeiro e começa a autopromoção mascarada de consciência.
A empatia, essa capacidade nobre de se colocar no lugar do outro, virou tendência — mas como tantas tendências, corre o risco de ser consumida superficialmente. É o que vemos quando causas urgentes se transformam em carrosséis no Instagram com paleta pastel e tipografia bonita, compartilhados com um clique, mas sem nenhuma ação concreta que se siga.
Fazer parte da conversa virou um sinal de pertencimento. Mas o excesso de performance tem um efeito colateral silencioso: a ilusão de que estamos avançando. De que “compartilhar” é o mesmo que agir, de que “repostar” equivale a se responsabilizar. Só que não é. A empatia que realmente transforma não é a que aparece — é a que se constrói no cotidiano. Que muda decisões, hábitos, privilégios.
Isso não é uma crítica a quem sente ou se mobiliza nas redes. Pelo contrário. É uma provocação honesta: o que a gente faz depois do post? Quantas vezes aquele “#empatia” nos levou a sair do lugar confortável? A ouvir, a rever, a ceder espaço?
Causas importantes — como racismo, direitos LGBTQIAPN+, saúde mental ou justiça climática — precisam de algo mais profundo do que aplausos digitais. Precisam de compromisso. Silencioso, por vezes. Longo. Inconveniente.
E talvez esse seja o ponto mais difícil de aceitar: que verdadeira empatia exige esforço. Não é sobre o que a gente mostra, mas sobre o que está disposto a fazer, mesmo que ninguém esteja vendo.
Então, da próxima vez que algo nos comover, que tal respirar antes de reagir? E perguntar, com honestidade: o que eu posso mudar na prática?
No fim das contas, sentir não é um filtro. É uma escolha contínua.
