A vontade de atuar apareceu cedo na vida de Bruno. “Como uma criança que cresceu assistindo Telecine em casa, eu via todos os tipos de filmes possíveis. Naquela época, a gente não conseguia saber o nome dos filmes — ele só aparecia no começo e nos intervalos, e isso fazia a gente ver de tudo um pouco. Eu adorava”, lembra. Um dos filmes que mais marcou sua infância foi Escola de Rock, que o fez sonhar em fazer parte daquela escola.
Mesmo com esse desejo, atuar parecia algo fora da sua realidade. “Me parecia distante, sabe? Como se eu nunca pudesse fazer aquilo”, conta Bruno. O tempo passou, e Bruno percebeu que a atuação estava mais próxima do que imaginava. Chegou a cursar Direito, mas se sentia completamente infeliz — o sonho de fazer arte sempre falava mais alto. Foi nesse momento que ele resolveu confiar no próprio coração: “Lembro do momento em que olhei pro lado e imaginei: ‘Eu posso muito bem seguir essa vida, e talvez me adapte — porque nós precisamos —, mas… a minha vida vai ser isso?’ Achei que valia a pena me dar um voto de confiança e seguir meu coração. E foi o que fiz, a partir daí”, me contou Bruno em um bate-papo exclusivo.
A decisão o levou para mais perto do que antes parecia impossível. Antes de estrear na TV, Bruno foi modelo por um tempo — experiência que o ajudou a entender a relação com a câmera e a se sentir mais confortável diante dela. Pouco depois, veio a grande porta de entrada: Malhação, novela que revelou tantos atores de sua geração. A partir daí, vieram outros trabalhos de destaque, até chegar à sua atuação mais recente no filme Homem com H.
Bruno guarda esse projeto com carinho especial. Ele diz que foi uma das experiências mais marcantes da carreira: “Pessoalmente falando, foi uma conquista muito legal, sem contar que eu acho que foi uma das mais lindas homenagens que já vi no cinema. Me sinto honrado de ter colaborado com este trabalho.”
Dirigido por Esmir Filho, Homem com H conta a história de Ney Matogrosso, ícone da música brasileira, e chegou à lista de mais assistidos da Netflix globalmente. Bruno Montaleone interpreta Marco de Maria, médico que foi casado com Ney por treze anos, numa atuação delicada e verdadeira que exigiu preparação intensa.
Tudo começou com um vídeo teste gravado pelo próprio Bruno, que logo chamou a atenção do diretor. Depois vieram os testes presenciais, até a aprovação. Mesmo feliz, Bruno sentiu o peso da responsabilidade: era a primeira vez que interpretava uma pessoa real. Como Marco não era figura pública, quase não havia material disponível para pesquisa. Essa pressão foi aos poucos tranquilizada com a ajuda de Esmir, que indicou caminhos, sugeriu leituras e promoveu encontros do elenco, criando um ambiente seguro para Bruno construir o personagem. “Assim, quando já estávamos no set, estava tudo tão amarrado que nós apenas curtimos os momentos”, relembra.
A preparação ao lado do diretor e também de seu par romântico no filme, Jesuíta Barbosa, foi essencial para dar vida a Marco com verdade e sensibilidade. Bruno destaca que o diretor oferecia liberdade criativa, algo que ele descreve como um presente raro. Dividir cena com Jesuíta, que interpretou Ney Matogrosso, tornou a experiência ainda mais especial. “Brinco que, desde o teste, o Jesuíta pra mim já era o Ney. Ver um ator tão entregue, nesse estado quase selvagem que todo ator já sonhou viver um dia… foi como assistir a uma onça pintada caçando”, diz Bruno, em tom de admiração.
E se Jesuíta foi essa onça — intensa, magnética, feroz —, Bruno trouxe o Marco como a maré: constante, profunda, abraçando tudo ao seu redor com delicadeza, honrando a história de seu personagem, como priorizou desde o começo. Marco não foi um coadjuvante na vida de Ney: foi porto seguro, companheiro, alguém que, mesmo enfrentando a fragilidade de uma doença cruel, permaneceu inteiro em presença. É dessa fusão entre força bruta e delicadeza que nasce a verdade que vemos na tela.
Marco de Maria foi médico e um dos grandes amores da vida de Ney Matogrosso. Eles estiveram juntos por treze anos e, mesmo depois de separados, Ney continuou cuidando de Marco até seu falecimento, em 1990, em decorrência da AIDS.
Contar uma narrativa assim exige sensibilidade não apenas da equipe de produção, mas também do elenco. Homem com H não romantiza, estigmatiza ou simplifica a tragédia da epidemia da AIDS. Pelo contrário, a obra aproxima o público das histórias reais daqueles que perderam entes queridos, reforçando a representatividade do filme em diferentes aspectos.
Para trazer essa verdade à tona, Bruno não estudou apenas a trajetória de Marco, mas também o contexto da epidemia no Brasil, além de conversar com o diretor sobre como retratar esse período no filme. A intenção não era criar uma visão distorcida, mas mostrar a vida como ela é: “A cena em que abordamos isso fala muito por si só. Fizemos tudo com a presença do Ney, e ele queria que fosse exatamente como foi, sem exageros nem pouco caso”, relembra Bruno.
Homem com H não é a única produção em que Bruno se entregou com verdade e conquistou o público. Recentemente, ele integrou o elenco de sucessos globais nos streamings, como a série De Volta aos 15, adaptação do livro de Bruna Vieira, em que interpreta Fabrício, personagem que movimenta a trama. Também esteve em O Lado Bom de Ser Traída e Diários de Intercâmbio. Além disso, Bruno protagonizou o filme Perdida, romance baseado no livro de Carina Rissi, contracenando com Giovanna Grigio, outro nome forte dessa nova geração de atores brasileiros.
Obras distintas em gênero e público, mas que têm em comum a presença de Bruno e o olhar de milhões de pessoas ao redor do mundo. Essa versatilidade revela um artista que se reinventa, capaz de existir em diferentes histórias e personagens: a verdadeira essência de ser ator, algo que, na trajetória do carioca, já se tornou natural.
Bruno celebra ao ver o cinema brasileiro alcançando novos públicos fora do país, algo que, para ele, só traz impactos positivos. Ele também acredita que os telespectadores estão mais abertos a consumir produções de várias nacionalidades, favorecidos pelo fácil acesso proporcionado pelos streamings.
A projeção internacional do nosso cinema, que por tanto tempo pareceu distante, começa a ganhar força: seja no reconhecimento de filmes nacionais em premiações importantes, seja no sucesso de produções que alcançam milhões de espectadores ao redor do mundo. “Eu quero mais é que muitas pessoas, cada vez mais, assistam ao meu trabalho e, claro, das produções brasileiras. […] Acho que essa globalização pode proporcionar as mais diversas histórias — e que a língua se torne uma barreira cada vez menor”, diz Bruno, reforçando não só o orgulho de participar desse movimento, mas também a esperança de que ele continue crescendo. “Espero que seja uma boa e longa fase”, completa.
Essa expansão da nossa cultura abre espaço não só para quem já está na indústria, mas também para quem sonha entrar nela, seja na frente ou atrás das câmeras. É um movimento que leva as histórias brasileiras a novos olhares ao redor do mundo, como, por exemplo, a de Ney Matogrosso, artista que atravessou gerações com sua arte e resistência. E, da mesma forma, revela ao mundo novos artistas que chegam para marcar a nossa geração com talento, sensibilidade e coragem de criar arte, como Bruno Montaleone.
Mas para sustentar esse novo público, é preciso primeiro olhar para dentro: para quem nós somos e para o que escolhemos consumir. Durante muito tempo, o público brasileiro deu preferência quase exclusiva ao que vinha de fora — algo que, felizmente, vem sendo desconstruído. Bruno acredita que esse movimento só ganha força de verdade quando vem junto de histórias que toquem o público: “Que isso sirva para termos mais olhos para o que fazemos aqui — mas, é claro, isso precisa vir acompanhado de boas histórias, que se comuniquem com o espectador. A gente gosta de assistir a todo tipo de filme.” Confiante, ele ainda torce para que esse interesse internacional se transforme em mais investimentos e oportunidades para o audiovisual brasileiro.
E enquanto o cinema e os streamings levam nossa cultura para cada vez mais lugares, Bruno também segue brilhando nas telinhas, participando de novelas da Rede Globo. Em 2023, esteve em Amor Perfeito, novela das seis, vivendo o personagem Ivan. Recentemente, participou de Mania de Você (2024), novela das nove, interpretando Cristiano, par romântico de Alanis Guillen.
As novelas ocupam um espaço especial no coração do público brasileiro, sendo um formato tradicional que conquistou seu lugar antes mesmo do crescimento dos filmes e séries nacionais. Além disso, representam um acesso mais democrático ao audiovisual, especialmente em um período anterior à popularização dos streamings. Bruno transita com facilidade entre formatos variados, reafirmando seu talento para alcançar públicos distintos e dialogar com diferentes gostos e modos de consumo.
Sobre o retorno à televisão aberta depois de atuar bastante em cinema e streaming, ele destaca que as novelas têm um ritmo próprio — mais intenso —, ao qual já está familiarizado: “Cada novela tem suas peculiaridades. Acho que parte do processo de uma novela é aceitar como as coisas são e trabalhar em equipe. Pode ser um processo muito gostoso.”
Para Bruno, uma das maiores diferenças está justamente no ritmo e na dinâmica de uma obra aberta, em que o roteiro não é fixo e pode se modificar a qualquer momento. “Creio que a novela seja o mais delicado porque quando se trabalha com obra aberta, você trabalha com ‘possibilidades de’ e nunca um roteiro com começo, meio e fim. Isso deixa o trabalho um pouco mais difícil”, explica.
Bruno tem mostrado não apenas talento, mas também um compromisso constante com a qualidade e a verdade em seus trabalhos. Sua capacidade de se entregar profundamente aos personagens, aliada à capacidade inerente para transitar entre diferentes formatos, faz dele um nome cada vez mais respeitado e admirado no audiovisual brasileiro. Essa entrega é fruto de muita preparação, estudo e respeito pelo público, que cada vez mais reconhece e valoriza sua atuação.
Além disso, Bruno entende a importância do diálogo com o público, que vai além das telas. Para ele, a recepção do público é uma forma de energia e incentivo para seguir evoluindo. O reconhecimento e o carinho recebidos não são apenas conquistas pessoais, mas também combustível para continuar investindo em projetos que toquem as pessoas. Essa conexão sustenta o seu caminho artístico e o leva cada vez mais longe.
Com esse olhar atento para o presente e o futuro, Bruno não para. No fim deste ano, começa a gravar a sequência do filme “Perdida”, intitulado “Encontrada” — o seu “xodó”, como revela o artista. Para Bruno, cada novo trabalho é uma oportunidade de crescimento e aprendizado, mantendo-se aberto a desafios e à construção de uma carreira sólida e significativa no cenário artístico nacional.
