Em plena era digital, quando tudo é consumido em vídeos de poucos segundos, a Lagum faz questão de ir na contramão — e faz isso com maestria. No sábado (02), Pedro, Zani, Jorge e Chico subiram ao palco do Espaço Unimed, em São Paulo, para dar início à turnê As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo, que apresenta ao vivo o quinto álbum de estúdio da banda, lançado em maio com 10 faixas inéditas e produção assinada pela Lagum ao lado de Paul Ralphes. Com ingressos esgotados, eles entregaram um show que lembra o clima dos anos 2000: plateia concentrada no palco, vivendo o momento de corpo inteiro — o “eterno agora”, como eles mesmos cantam.
No palco, a Lagum também explora as cores, as curvas e as dores do mundo. Todo o espetáculo é pensado como um todo, com variedade de gêneros e texturas, com mudanças de clima ao decorrer da setlist, que tem começo, meio e fim, guiando o público por uma curva que segura a atenção o tempo todo. Quando parece que a energia do público pode cair, eles entram com um dos hits que levantam a plateia, e então, todos gritam, pulam e vivem intensamente o momento.
Durante o fim deste ano, a banda percorre o Brasil com a turnê, sendo o próximo show em Joinville, Santa Catarina. A Lagum passa por diversas cidades, do interior às capitais, até o dia 13 de dezembro, quando encerra a etapa nacional em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em 2026, a turnê segue para a Europa, começando na Alemanha e terminando em Portugal, com shows em Porto e Lisboa.
Com novo álbum e turnê, a Lagum mostra mais uma vez a que veio: para fazer história. Desde 2014, a banda vem traçando um caminho sólido, com três álbuns indicados ao Grammy Latino e lotando casas de shows por onde passa. Com uma sonoridade única na música brasileira — que transita entre o pop, o pop rock e o reggae, sem se limitar a um só gênero — a Lagum conquistou uma verdadeira legião de fãs dentro e fora do Brasil.
E mesmo depois de tantos anos de estrada e tantos palcos lotados, o frio na barriga nunca some. Para Pedro Calais, vocalista da banda, é justamente isso que os move. Segundo ele, quando o frio na barriga parar, é hora de parar. “Antes de entrar em cada show, a gente sente um pouco dessa ansiedade e tenta se concentrar, meditar, faz uma oração juntos, ouve música juntos, e isso tudo acalma a gente”, contou Pedro em um bate-papo exclusivo.
Foto: Breno Galtier
A dedicação da banda em cada show, transformando cada apresentação em algo único, mostra que, mesmo com mais de dez anos de estrada, esse parece ser só o começo. No palco, os quatro integrantes combinam presença, comprometimento, talento, paixão e uma verdadeira devoção pela música. Dá para sentir que a Lagum se entrega de corpo e alma, e que cada um soma com a sua individualidade para criar uma experiência impecável — e o público corresponde na mesma intensidade.
Essa entrega emociona quem está na plateia de diferentes maneiras: alguns choram, outros gritam, pulam, dançam, se declaram ou simplesmente se divertem. Um dos momentos mais marcantes do show acontece na penúltima música, “A Cidade”, que traz uma melodia melancólica e uma letra sobre a saudade. Com uma letra delicada, a canção mostra como a ausência de quem se ama esvazia a cidade de vida e cor, transformando ruas e paisagens em um cenário triste e caótico, como se tudo ficasse fora dos eixos.
Embora tenha sido composta pensando na saudade, a música acabou sendo interpretada por muitos fãs como um retrato do luto, especialmente por versos como “O seu olho brilhava ao refletir o Sol / acende a si, criando um show no céu”. Essa nova leitura surpreendeu a banda de maneira positiva. Segundo Pedro Calais, foi uma grata surpresa perceber que a canção trouxe conforto e passou a fazer sentido na história de quem ouve.
Lagum no clipe ‘A Cidade’. Foto: Divulgação.
A partir disso, a banda decidiu homenagear o ex-baterista Breno Braga, o Tio Wilson, que faleceu em 2020 após uma parada cardiorrespiratória. Transformando a dor em arte mais uma vez, a Lagum eternizou a memória do Tio no clipe da canção, dirigido por Vito Soares e gravado em um terraço de Belo Horizonte, cidade onde a banda nasceu. A ideia partiu de Pedro, que sempre observava aquele terraço pela janela de casa, até que decidiu transformá-lo em cenário. O conceito do clipe é simples e forte: mostrar a cidade vazia, sem os músicos, refletindo na imagem a ausência cantada no refrão: “A cidade sem você não é igual / a cidade sem você não tem ninguém”. Você pode assistir ao clipe de “A Cidade” aqui.
No dia 03 de outubro, a banda volta ao Espaço Unimed para uma data extra, após esgotar o show de abertura da turnê em São Paulo. “Isso aqui tá tão bom que a gente tem que fazer de novo!”, brincou o vocalista Pedro Calais ao fim da apresentação. A venda dos ingressos já está aberta na Ticket360.
A energia, a entrega e a conexão da Lagum com o público deixaram claro que a banda não só mantém a relevância, como segue evoluindo e emocionando a cada apresentação. Quem esteve no Espaço Unimed saiu com a certeza de que o “eterno agora” da Lagum ainda vai durar muito, no palco, nos fones de ouvido e no dia a dia dos fãs.
Entrevista e texto: Paola Fernandes
