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Quando escrever (bem) virou ofensa

Houve um tempo em que a escrita formal era sinônimo de cuidado. Não precisava ser rebuscada, mas carregava um compromisso com a clareza, com a estética e com a gramática que herdamos dos livros, das cartas e da imprensa. Esse hábito vinha, sobretudo, da leitura: quem lia mais, escrevia melhor.

Mas aí chegou a internet — e, com ela, um novo ecossistema de comunicação. Nos anos 2000, antes de aplicativos de mensagem instantânea, vivíamos a era do SMS tarifado por caractere. Cada palavra precisava ser encurtada para caber em uma mensagem e não custar mais. “Beleza” virou “blz”, “você” virou “vc”, “qualquer” perdeu o “l” e o “u” e virou “qquer”. Era economia de espaço e de centavos, e, sem perceber, começamos a moldar um novo jeito de escrever.

Veio o MSN, o Orkut, os fóruns, depois o WhatsApp e as redes sociais como conhecemos hoje. A comunicação rápida passou a ser prioridade absoluta — e com ela se consolidou uma linguagem imediatista, oralizada e recheada de gírias. Não era mais preciso pensar na estrutura de um parágrafo ou escolher palavras precisas: bastava digitar como se fala. O resultado é que muitas pessoas, especialmente as que nunca tiveram o hábito de ler literatura, perderam familiaridade com a norma culta. Não é “erro” no sentido moral, mas consequência natural de um ambiente onde o tempo é curto e a atenção mais ainda.

Aí, em 2022, chega o ChatGPT. E, de repente, um robô passa a escrever num português formal, correto e até literário, usando travessões para diálogos (herança da tradição tipográfica brasileira), recuperando palavras que a gente via mais nas páginas de livros do que nas timelines. Para muita gente, especialmente as que não conviveram com essa linguagem, tudo isso soa artificial. Surgiu então a reação curiosa: “Nossa, isso tem cara de ChatGPT”.

Mas vamos olhar com calma: o travessão não foi inventado pela inteligência artificial. Está na nossa literatura desde Machado de Assis e Clarice Lispector. Palavras “diferentes” não são robóticas, são parte do vocabulário da língua, mesmo que a gente não as use no dia a dia de um chat. O que acontece é que, para quem não tinha esse repertório — seja por falta de leitura, seja pela predominância de um português digital encurtado —, reencontrar o formal pode soar estranho, quase deslocado.

E aí chegamos ao ponto: não há problema em escrever usando gírias, abreviações ou um português mais solto. Mas também não há problema em escrever de forma mais formal, seja por hábito, por escolha ou — pasme — até com a ajuda de uma IA. A norma culta não deixou de ser correta porque as redes sociais aceleraram o mundo. E não deveria ser motivo de ironia reconhecer quando alguém escreve com cuidado.

Quando alguém chama um texto de “escrita de ChatGPT”, talvez esteja, sem querer, fazendo um elogio. Porque, no fundo, está dizendo: “isso aqui soa mais próximo da literatura do que da timeline”. E, para mim, isso é vitória.

Esse texto foi escrito por uma IA. Ou não. Será?

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