Carol Biazin chegou na indústria de mansinho, sem alarde, conquistando o seu espaço de forma quase imperceptível, mas certeira. Participante do antigo reality The Voice Brasil em 2017, a paranaense chegou até a final, mas não levou o troféu para casa. E, sinceramente, talvez nem precisasse. A vitória real veio de outra forma: conquistando o público com uma voz que consegue ser mansa e potente, doce e marcante, tudo ao mesmo tempo. Oito anos se passaram desde então, e muita coisa mudou. Mas uma certeza permanece: Carol continua deixando sua marca por onde passa, e cada vez mais forte.
Em agosto de 2024, ela lançou No Escuro, a primeira parte de seu novo álbum, com dez faixas no Spotify. Entre elas, Corações de Pedra, parceria com a rapper Duquesa, e um repertório que vai de canções melancólicas como Menina do Interior até faixas dançantes e experimentais como (Não) Quero Me Apaixonar, que surpreende com um beat de funk no refrão. Essa primeira parte viajou pelo país e preparou terreno para o que viria a seguir. Foi durante a turnê que Carol apresentou pela primeira vez um trecho de Que Pecado, parceria com Ebony que viria a integrar No Escuro, Quem É Você?, segunda parte do álbum, lançada em maio deste ano.
Fotos: Paola Fernandes e Jennifer Rodrigues, exclusivamente para a D’idées Magazine
Se a primeira parte nasceu de um lugar mais escuro, de insegurança e solidão — reflexo de um período em que Carol se sentia isolada em São Paulo —, a segunda parte do álbum nasce de um lugar mais solar e seguro de si. As duas partes acompanham de forma fiel o que ela sentia em cada fase, como se trouxesse as suas próprias “queixas de terapia”. Partindo de um estado de dúvida, do modo como lidava com os sentimentos, as relações e a superficialidade que percebia nelas, o álbum surge como um respiro — uma forma de transformar questionamentos e solidão em música.
Faixas como Casula e Menina do Interior traduzem a saudade e o peso da solidão na metrópole. Mesmo as mais animadas, como (Não) Quero Me Apaixonar, carregam insegurança e o medo de se entregar. Corações de Pedra critica relações rasas, enquanto 1697 escancara a vontade de amar em meio à inconstância dos sentimentos.
Já No Escuro, Quem É Você? mostra uma Carol transformada. Em AMAReSÓ, por exemplo, ela encerra cantando “Como é bom se apaixonar”, como se respondesse diretamente à recusa da primeira parte em viver o amor. É a arte acontecendo em tempo real, quebrando perspectivas à medida que a vida avança. “Eu queria trazer letras com profundidade, que mexessem com o coração das pessoas, mesmo que o corpo também se movesse”, diz Carol. “Acredito que todo mundo se sente perdido às vezes, e esse álbum me ajudou muito a me encontrar.”
Nessa nova fase, o amor deixa de ser território de incerteza. SOU DO MUNDO, AMAReSÓ e um amor calmo mostram uma artista que já não tem medo de se entregar. Mas uma das canções mais fortes é TE AMO SEM CULPA, um hino sobre viver abertamente o amor entre duas mulheres, sem pedir licença e sem carregar peso. A faixa, mesmo pessoal, reflete a vivência de muitas pessoas LGBTQIAPN+, falando de um amor que se recusa a se esconder: amado na rua, no meio dos carros, de porta aberta, com todo mundo vendo.
Nos shows, TE AMO SEM CULPA ganha ainda mais força. Ao final da performance, Carol ergue uma bandeira com o título da música, transformando o momento em um manifesto sensível pelo direito de amar livremente. É um recado claro: falar sobre o que se sente não deveria ser motivo de culpa. Afinal, todo apaixonado quer falar sobre quem ama — seja um homem ou uma mulher. Carol, abertamente lésbica, não só canta sobre o amor entre mulheres, como encoraja outras lésbicas e bissexuais a falarem sobre os seus amores com orgulho, sem medo e sem culpa.
Mas não é só essa faixa que brilha no palco. O álbum inteiro cresce no ao vivo, e o público canta tão alto que às vezes se sobrepõe à própria artista. A turnê No Escuro, Quem É Você? é uma troca intensa: Carol se entrega completamente, e a plateia responde na mesma medida. É o resultado de oito anos de dedicação, de quem não teme experimentar, testar novos caminhos e mostrar que sabe fazer música em diferentes formatos e gêneros. Carol Biazin hoje ocupa um espaço único no pop brasileiro — é uma vocalista envolvente, compositora afiada, instrumentista talentosa e dona de uma presença de palco hipnotizante.
O show é um mix de sentimentos: melancólico, sensual, romântico, alegre e até divertido, com o humor característico da cantora. Carol é dessas artistas que não precisam de muito para se reinventar, pois já se transformam em tempo real no palco. E assim, diante do público, ela mostra exatamente quem é, claro ou no escuro.
