As cores da primavera e o branco do silêncio

Por Daniela Tafner


Aos poucos, o frio e os dias cinzentos vão cedendo espaço. Gradativamente, o sol volta a aquecer nossa pele, nossas vidas. As flores e as cores ressurgem com a leveza que a primavera promete, lembrando-nos de que tudo é passageiro e transitório.

É nesse período do ano que se renova a promessa de superação, beleza e renascimento. Para os apaixonados por flores, como eu, é a estação em que elas se vestem com uma beleza única, preenchendo os espaços com perfume e exuberância.

Quase sem perceber, somos tomados por um desejo maior de viver. Assim como as sementes, que ao encontrarem solo fértil germinam, criam raízes e se transformam em novas mudas e plantas.

Foto: Divulgação

A primavera, indiscutivelmente, chega para todos. E, de forma poética, nos envolve em boas lembranças da juventude ou no aprendizado de resistência e esperança de dias melhores. O início da primavera é uma lição que algumas árvores e flores nos dão quando as observamos: perdem suas folhas, mas não perdem sua essência.

Na universidade onde trabalho, há uma árvore que, no inverno, perde todas as folhas e passa um longo período aparentemente fragilizada. Porém, com o tempo, se renova e revela todo o seu esplendor.

Muito ainda poderia ser escrito sobre a primavera. Mas ela também nos convida a refletir: essa relação de superação e renovação não acontece para todos.

Assim como algumas árvores são apagadas pelo inverno, hoje quase 56% da população brasileira permanece em estado de hibernação – em um inverno sem fim. A população negra e parda, mesmo com a chegada da primavera, ainda está longe de florescer. E não por falta de desejo ou luta, mas porque o solo brasileiro e mundial continua adubado por valores discriminatórios e permissivos.

Pergunto-me, sempre que leio os jornais e vejo as notícias: quantas vidas negras ainda serão podadas antes que reivindiquemos, de fato, o direito à vida e à dignidade?

Ao olharmos para as crianças do nosso país, o que vemos é a violência, a fome, a falta de acesso à educação – ou a evasão escolar imposta pela necessidade de sobreviver. Essa é a realidade das crianças negras e pardas. 

Enquanto algumas vidas são celebradas com flores, outras são silenciadas por estatísticas: o jovem negro que não chegou à primavera seguinte; a criança negra julgada antes mesmo de ser olhada com humanidade. A primavera da equidade ainda não chegou.

Como educadora, acredito que a transformação começa pelo incômodo. Que a primavera nos incomode. Que nos faça olhar para os jardins que não florescem. Que nos convide a plantar sementes de justiça, escuta e acolhimento.

Porque a verdadeira primavera não é feita apenas de flores, mas de coragem para arrancar as ervas daninhas da exclusão e da indiferença.

Quantas primaveras ainda serão negadas antes que o solo da igualdade floresça para todos?

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