Desde sua estreia em Killing Eve, Villanelle (personagem interpretada por Jodie Comer) passou a ocupar um espaço específico na cultura visual da televisão contemporânea. Muito além da personagem, o figurino se tornou parte ativa da narrativa. As roupas que ela veste ajudam a construir sua personalidade, marcar momentos e até manipular a percepção de quem a vê. Villanelle usa a moda como linguagem, uma que não busca suavizar sua presença, mas ampliá-la.
Ao longo da série, seu estilo evita padrões fixos. Ela veste vestidos de tule, casacos masculinos, ternos sob medida, camisolas de seda e peças de passarela. Cada escolha tem propósito, mesmo quando parece aleatória. O vestido rosa de Molly Goddard, que ganhou destaque ainda na primeira temporada, é um bom exemplo disso: a cena pede confronto, mas o vestido indica doçura. Essa contradição visual revela o que Villanelle faz melhor: desorientar. E é nessa tensão que o figurino ganha função dramática.
O uso da moda queer também aparece com força. Villanelle alterna entre códigos considerados femininos e masculinos com naturalidade. Usa calças largas, gravatas finas, peças oversized e vestidos justos sem fazer da escolha uma afirmação direta, ela simplesmente veste o que quer. Essa liberdade foi lida por parte do público como um gesto político. Para outros, foi uma nova possibilidade de enxergar estilo sem rótulo.
O figurino da personagem foi assinado inicialmente por Phoebe de Gaye e depois por Charlotte Mitchell. Ambas entenderam que a força de Villanelle estava justamente na ausência de previsibilidade. Ao usar a moda como estratégia, a personagem mostrou que se vestir pode ser um ato de poder, um recurso narrativo tão eficaz quanto o diálogo ou o gesto.
Fora da série, a imagem de Villanelle atravessou a tela. Looks usados pela personagem apareceram em editoriais de moda, vitrines e coleções recentes. Grifes como Loewe, Prada e The Vampire’s Wife criaram peças que poderiam estar no guarda-roupa dela. Algumas, inclusive, estiveram.
Villanelle mostrou que roupa não é apenas estética. É argumento, é performance, é ferramenta de transformação. Ao vestir o inesperado, ela desafiou o que se espera de uma personagem feminina. E fez da moda uma parte ativa da sua história.
A sua força, em parte, na maneira como ela usa a moda como linguagem. E talvez seja isso que fez tanta gente se identificar com ela: a sensação de que vestir-se também é contar algo sobre quem somos, mesmo quando essa história muda de capítulo de um dia para o outro.
