Quando a roupa é voz

A sensualidade como expressão pessoal

Sempre me intrigou a maneira como algumas mulheres conseguem entrar em um ambiente e, sem dizer uma palavra, comunicar algo tão profundo quanto um pensamento. É um gesto sutil, a forma como caminham, ou como tocam o tecido da roupa que escolheram vestir. Mas, acima de tudo, é a roupa em si. Não pelo corte revelador ou pela ousadia de uma fenda, mas pela intenção silenciosa por trás da escolha.

A sensualidade, aprendi ao longo de mais de uma década trabalhando com moda, raramente é sobre mostrar. É sobre revelar algo. Algo de si, do momento, de um desejo que nem sempre é dito.

Há quem se sinta mais provocante com uma camisa branca de algodão do que com um vestido de cetim justo. Quem encontre sua força num look minimalista de alfaiataria ou num vestido fluido com tecido que dança com o vento. Para algumas, é um decote nas costas. Para outras, uma gola alta e o batom certo.

Na preparação desta edição, conversei com personal stylists, modelos e designers que acompanham de perto esse movimento íntimo e poderoso. O da mulher que aprende a vestir sua própria voz. E a traduz em silhuetas, texturas, cores e contrastes que fazem sentido para quem ela é, e não para quem esperam que ela seja.

“Ser sensual é chamar atenção usando uma camiseta oversized e um jeans ‘mom cut’. Sensualidade vem de dentro — é um estado mental. É uma segurança pessoal que irradia de dentro para fora.Nada é mais sensual do que uma mulher que veste confiança. Para mim, sensualidade está nas escolhas inusitadas: uma camiseta simples, um visual effortless, um jogo de cores harmônicas. Gosto de peças do dia a dia que revelam uma beleza natural, sem esforço, e acentuam o que cada mulher tem de único.” – Gabi de Godoi, modelo e empresária.

Entre uma conversa e outra, fui percebendo um padrão. Quando a roupa se torna uma extensão da consciência, o corpo deixa de ser vitrine e passa a ser veículo. E o desejo não se impõe. Ele vibra. Como um olhar que dura meio segundo a mais. Como um botão que fica propositalmente aberto. Como um perfume que permanece no ar mesmo depois da partida.

Estilo não é sobre seguir códigos, mas sobre saber quais deles nos representam. E sensualidade, então, passa a ser uma linguagem particular, que pode mudar ao longo dos anos, conforme mudamos também.

Talvez, por isso, algumas roupas que ontem pareciam seguras hoje nos pareçam caladas demais. Ou por que aquela peça esquecida no fundo do armário, de repente, volta a fazer sentido. Não é a roupa que muda. Somos nós.

A cada estação, as tendências tentam nos guiar. Mostre os ombros, esconda os joelhos, use vermelho, vista o couro. Mas há algo de profundamente libertador em escutar o corpo antes da vitrine. A pergunta não é mais “o que está na moda?”. É “o que me faz sentir inteira hoje?”.

E se a resposta for uma transparência ousada, ou um vestido vintage fechado até o pescoço, tudo bem. Porque vestir-se de si mesma é, no fim, o gesto mais elegante e mais sexy que existe.

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